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Em Formoso do Araguaia ex-alunos que namoraram escondido em escola viraram funcionários e vivem no local há mais de 40 anos

Ao todo, 840 alunos e 250 funcionários vivem na escola rural, que venceu prêmio internacional de arquitetura. Local virou o lar de várias famílias.

  • Publicado em 24/Nov/2018 às 11h22 ( atualizado às 11h32).

Há mais de 40 anos, o casal Antônio Reis, de 54 anos, e Darziler Machado, de 53, vive na escola rural na fazenda Canuanã, município de Formoso do Araguaia. Eles chegaram no local aos sete anos, se tornaram amigos, namoraram escondido – na época o namoro entre alunos era proibido - se casaram e se tornaram funcionários na unidade. Os filhos estudaram no mesmo lugar e hoje o casal diz ter orgulho de contribuir com a escola, que virou o lar da família.

Na última terça-feira (20), dois dormitórios da escola, construídos há mais de um ano, conquistaram o prêmio internacional de arquitetura Riba 2018. As construções lembram uma oca, com grandes pátios com redes, flores e plantas. Mas a estrutura segue conceitos atuais da arquitetura, como a sustentabilidade. A madeira usada é de reflorestamento, e os tijolos ecológicos foram feitos da terra da própria fazenda. Foi essa combinação entre modernidade, tradição indígena e elementos da natureza que garantiu ao projeto o título de melhor construção arquitetônica do mundo.



Escola rural fica na fazenda Canuanã, no município de Formoso do Araguaia — Foto: Jesana de Jesus/G1



Antônio lembra que chegou à escola na década de 70. Ele e Darziler eram vizinhos na Ilha do Bananal, localizada próxima à fazenda Canuanã, e atravessaram quilômetros de estradas rurais no lombo de um cavalo até chegarem à escola, recém-criada na região.

“Era uma época mais difícil, era começo, muitos pais não acreditavam na escola, alunos fugiam por causa da distância, a gente não tinha o costume de viver longe da família e na época, os estudos não eram tão valorizados. Nossos pais falaram: ‘Vocês têm que ficar, não inventam de fugir porque a oportunidade é essa’. Graças a Deus, a gente abraçou”, relembra ele.

Vivendo no mesmo lugar, convivendo quase 24 horas por dia e participando das mesmas atividades, os dois se apaixonaram e começaram a namorar. Mas, tinham que manter a discrição. Na época, alunos não podiam se relacionar.

“Era terminantemente proibido. Mas não tem jeito para ser humano, parece que quanto mais proibido, mais dá-se o jeito para acontecer. Mas a forma como namorávamos, tinha o respeito, apesar de ser proibido, soubemos conduzir de tal forma, que passava despercebido”, contou sorrindo Antônio.

Os dois namoraram por cerca de sete anos. Terminaram o ensino médio em 1984 e foram chamados para trabalhar na fazenda no ano seguinte. O namoro virou casamento, com cerimônia realizada em 1988.

“Nunca imaginei que iria me casar com ele. Éramos crianças e aí foi chegando a adolescência, sempre íamos para casa e voltávamos juntos, e aí começamos a encantar um pelo outro. É uma história que dá um livro”, contou Darziler.

Hoje, Antônio trabalha na parte administrativa na escola. Derziler é professora. O casal teve duas filhas, que estudaram no local e já concluíram o curso superior. Uma delas é psicóloga, concluiu o curso, mas voltou e hoje também desenvolve atividades na fazenda Canuanã.

“Aqui tem as mesmas tecnologias que têm lá fora. Passaram umas 20 turmas na minha mão e eu vejo o fruto desse trabalho, fico orgulhosa, tem muitos meninos bem-sucedidos. Quando eu vejo um aluno que foi meu se destacando, é um motivo de muito orgulho. Fui aluna e hoje faço parte dessa história”, disse ela.

Para Derziler, a escola é o lar da família. “Eu vim para casa aos sete anos, estou até hoje como funcionária. Para mim, aqui é tudo, é vida”.


Antônio e Derlizer foram alunos de escola rural e hoje são funcionários — Foto: Jesana de Jesus/G1



Escola rural de Canuanã

A escola tem 45 anos, fica numa área de 2.500 hectares na fazenda Canuanã, que é próxima à Ilha do Bananal. Ela é rodeada por uma extensa área verde, cercada pelo rio Javaé e vizinha de aldeias indígenas.

Oitocentos e quarenta alunos de baixa renda – sendo cerca de 40 indígenas da região – frequentam ali turmas que vão do 2º ano do ensino fundamental até a 3ª série do ensino médio. A escola é administrada pela fundação do banco Bradesco e tem 250 funcionários.

Dois dormitórios, cuja construção começou em setembro de 2015 e terminou em dezembro de 2016, conquistaram o prêmio internacional de arquitetura. Para projetar as estruturas, o arquiteto Marcelo Rosembaum e o Grupo Aleph Zero, responsáveis pelo projeto, pensaram em detalhes que pudessem transformar os prédios em lar. Eles conversaram com os alunos, funcionários e vizinhos.

O projeto vencedor contempla dois dormitórios – um feminino e um masculino – para os alunos mais velhos, a partir do 6º ano. Com 11 mil metros quadrados cada um, eles têm dois andares. No térreo, ficam os quartos, com seis camas cada, um banheiro, lavanderia e uma mesa para estudos. Também há pátio com bancos e redes usadas para tirar um cochilo ou descansar entre uma atividade e outra.

Na parte de cima, há mais locais para colocar redes, mesas de ping pong e para prática de jogos de tabuleiro. Há ainda uma sala de televisão e uma sala de leitura com design moderno, uma mesa, que lembra figuras geométricas, computadores com internet e um quadro para os alunos escreverem.

Cada quarto tem um nome em português e, ao lado, uma figura que representa a palavra na língua Inã, idioma dos indígenas javaés, que vivem na região. Os símbolos foram pintados pelos próprios indígenas.

As cores do local remetem à cultura local: o vermelho das redes é o colorau, da pintura dos indígenas, e o amarelo nas almofadas lembra a produção agropecuária, plantio de milho.

"É uma construção pensando na sustentabilidade, nesse prédio não tem um pedaço de madeira da natureza, é tudo de reflorestamento, eucalipto filetado, prensado e tratado. O tijolo foi feito com terra da fazenda, não se usou lenha para queimar o tijolo, ele é prensado numa prensa manual. Não precisa colocar ar-condicionado, que é um enorme ganho com economia de energia. E tudo isso dentro da natureza", diz o diretor Ricardo Rehder Garcia.

O prêmio

A escola rural brasileira concorria ao prêmio internacional com outras 20 construções, de 16 países e desbancou projetos de Budapeste, Milão e Tóquio, que estavam entre os quatro finalistas. Ao divulgar o vencedor, o Riba justificou a escolha pela escola brasileira por "exemplificar a excelência em design e a ambição arquitetônica e oferecer um impacto social significativo".

No projeto, localizado na zona rural de Formoso do Araguaía, a 327 km de Palmas, foi feito um resgate cultural, com incentivo a técnicas de construção local, valorizando a beleza indígena e introduzindo noções de pertencimento, necessária para o desenvolvimento das crianças.

O Riba não é o primeiro pêmio internacional conquistado pela 'Aldeia das Crianças'. Em fevereiro, o projeto recebeu o prêmio de Arquitetura Educacional, da Building of the Year 2018.


Fonte: G1TO