
O vereador de Alvorada Leonardo Rinaldi não expôs apenas uma falha de comunicação em seu recente vídeo — mostrou também algo mais grave: a ausência de conhecimento sobre os limites e atribuições dos poderes constituídos.
Não é novidade encontrar fotos de vereadores da pacata cidade de Alvorada, no sul do Tocantins, orgulhosos, cercados de autoridades em Brasília. O registro serve bem às redes sociais, principalmente em ano pré-eleitoral: a imagem de quem “trabalha” pelo município. Mas, no mundo real, essas viagens custam caro aos cofres públicos, rendem gordas diárias ao parlamentar e, de concreto, entregam muito pouco.
Rinaldi afirmou que a diária para Brasília custa R$ 1.040. Mas os números contam outra história: R$ 5.720 pagos por cinco dias resultam em R$ 1.144 por diária. E ainda falta incluir a inscrição de R$ 1.100. Ou seja: se a conta do vereador não fecha, a da população fecha demais — e sempre no vermelho.
Vereador não tem peso político em Brasília
Especialistas confirmam o óbvio: vereadores não têm poder para barganhar investimentos federais. O cientista político Eron Brum é categórico: “Cabe ao vereador atender a comunidade da cidade, manter diálogo com a população, verificar os problemas e fiscalizar o prefeito. A hora que o vereador começa a se preocupar em buscar recursos federais, não será um bom vereador. Para isso temos deputados federais e senadores”.
Na mesma linha, o doutor em Direito Constitucional e professor da UFMS, Sandro Oliveira, afirma: “A viagem de um vereador a Brasília não tem nenhum efeito prático. Quem apresenta as emendas são deputados e senadores. Não tenho dúvida de que pedido de vereador não tem peso e nenhuma eficácia”.
Ou seja, a ida de Rinaldi a Brasília é um espetáculo caro, sem resultados palpáveis — ou, como definiu Oliveira, uma medida inócua.

Depois de um dia cheio de cursos em Brasília, vereadores foram curtir o jogo da seleção brasileira ao lado de lideranças políticas.
Telefonema sairia mais barato
O ponto mais irônico é que nem mesmo encontros em ministérios ou com parlamentares justificam o deslocamento. “Todos eles têm escritórios nas capitais, não haveria necessidade da viagem”, explica Eron Brum. “Bastaria um telefonema para pedir apoio”.
Mas, convenhamos, telefonema não rende foto sorridente em frente ao Congresso nem engajamento nas redes sociais.
Moralidade em xeque
Rinaldi insiste que as viagens são para cursos e para “buscar recursos” em Brasília. O detalhe é que essa função não pertence ao Legislativo municipal. Caso queira mesmo bancar o papel de prefeito, o calendário eleitoral está aí: basta esperar 2028 e disputar o cargo. Até lá, sobra a missão básica de vereador: fiscalizar, legislar e estar presente no município.
Enquanto isso, o contribuinte de Alvorada paga a conta — mais de R$ 250 mil em diárias — e recebe de volta apenas vídeos mal explicados e justificativas que não passam na régua da moralidade.
No fim, a lição
Se o objetivo era mostrar capacitação, o resultado foi outro: Rinaldi conseguiu ensinar à população que, em Brasília, vereador pode até posar para fotos, mas quem paga a conta é sempre o eleitor.


