
Por Claudemir Brito/Editor-chefe do Portal CB
Quando os poderes constituídos decidem caminhar ao lado de influenciadores de caráter duvidoso — aqueles que constroem sua relevância na polêmica e, muitas vezes, na difamação — a escolha deixa de ser apenas uma estratégia de comunicação e passa a ser um posicionamento político e institucional.
É inegável que essas figuras possuem alcance. Elas falam com milhares, às vezes milhões, em poucos segundos. Para quem está no poder, isso pode soar como uma oportunidade: ampliar voz, ganhar visibilidade, ocupar espaço. Mas existe uma linha tênue — e perigosa — entre ser visto e ser respeitado. Visibilidade abre portas; credibilidade sustenta permanência. E quando essa diferença é ignorada, o desgaste vem, inevitavelmente.
O poder público não opera na lógica das redes sociais. Ele carrega um compromisso com a estabilidade, com a responsabilidade e com a confiança coletiva. Ao se associar a personagens que vivem da controvérsia, o Estado acaba importando para dentro de si uma dinâmica que lhe é estranha: a da instabilidade constante. E a sociedade percebe rápido. A leitura é simples e direta: quem escolhe andar junto, de alguma forma, endossa.
Mais do que nomes ou rostos, o que está em jogo é o símbolo dessa aproximação. A política, que deveria elevar o debate, corre o risco de se rebaixar à lógica do confronto raso, da viralização fácil e da narrativa simplificada. O resultado pode até gerar números — curtidas, compartilhamentos, alcance — mas enfraquece aquilo que realmente sustenta qualquer gestão: a confiança pública.
E esse não é um efeito imediato, isolado. Ele se acumula. Uma escolha aqui, outra ali, e de repente o padrão se estabelece. A população começa a questionar critérios, prioridades e, principalmente, a seriedade das decisões. Porque comunicação institucional não deveria ser sobre quem faz mais barulho, mas sobre quem transmite mais segurança.
No médio e longo prazo, a conta chega. A credibilidade, construída com tempo e consistência, pode ser corroída rapidamente quando a política passa a flertar constantemente com a polêmica. E diferente de engajamento, confiança não se compra, não se impulsiona e não se recupera com facilidade.
No fim das contas, gestão que se ancora em polêmica não constrói legado — apenas prolonga exposição. E governar nunca foi sobre aparecer mais, mas sobre ser respeitado o suficiente para não precisar disso.


