
Enquanto o agronegócio de Porangatu celebra cifras milionárias, população discute nas redes sociais a possibilidade de pagar ou não para entrar na festa
Porangatu (GO) – O dilema sobre portões abertos ou fechados na Exponorte 2025 ganhou contornos quase cômicos – ou trágicos, dependendo do ponto de vista – ao escancarar o contraste entre dois mundos que convivem lado a lado durante a tradicional festa agropecuária: o novo público que conta os trocados para comprar um refrigerante – muitas vezes considerado superfaturado, e o setor agropecuário que movimenta milhões de reais anualmente.
Enquanto o agronegócio local comemora recordes de safra, expansão de rebanhos e vendas de maquinários de alto padrão, o cidadão comum segue na torcida por mais uma edição com portões abertos. o público que sustenta os números de audiência nas redes sociais só quer saber de uma coisa: “Vai ser de graça ou vou ter que vender a bicicleta da criança pra comprar o passaporte?”
A enquete lançada nesta semana pela presidente do Sindicato Rural de Porangatu, Ana Amélia Paulino, sobre a possibilidade de portões abertos ou fechados na Exponorte 2025, reacendeu um debate que já vinha movimentando os bastidores do evento desde o ano passado. O formato adotado na última edição da feira agradou e desagradou o público ao mesmo tempo, deixando a organização diante de um desafio para este ano.
Historicamente, a Exponorte sempre foi palco de um espetáculo que ia além das montarias e dos shows: a clara divisão de classes. De um lado, os privilegiados que circulavam com pulseiras VIP, desfrutando de camarotes com open bar e vista privilegiada da arena. De outro, o público que, mesmo reclamando dos altos preços de bebidas e alimentos dentro do parque, ainda assim fazia questão de garantir um lugar na arquibancada do rodeio, nem que fosse só por uma noite.
Havia também aquele terceiro grupo, sempre presente, mas invisível nas estatísticas oficiais: os que nunca se imaginaram participando da festa todos os dias. Para eles, ir à Exponorte uma única vez já era motivo de comemoração. E, claro, não podemos esquecer de quem, por limitações financeiras, sequer cogitava a ideia de passar pelos portões do parque.
O cenário sempre foi o mesmo: camarotes lotados de empresários e produtores rurais brindando os bons negócios do agro, enquanto do lado de fora, o público menos favorecido tentava, como podia, aproveitar o pouco que a estrutura gratuita oferecia.
Nas redes sociais, o comentário que mais viralizou até agora resume o sentimento de uma parcela da população com uma pitada de sarcasmo: “Se for fechar os portões pra trazer cantor bom, até vale… agora pagar pra ver atração meia boca, ninguém merece”.
O comentário vira o símbolo de uma discussão que vai muito além de entretenimento: é o retrato de uma cidade onde o agro avança com tratores de última geração, mas uma boa parcela dos moradores ainda chega ao parque a pé – e com o ingresso gratuito como condição para participar da festa.
O fato é que, em meio a cifras, tratores e camarotes com open bar, a grande maioria só quer saber de uma coisa: entrar, cantar, dançar e viver – nem que seja por uma noite – o sonho de um grande show, sem pesar no bolso.
Resta saber qual será a decisão final do Sindicato Rural. Por enquanto, o pobre segue na torcida… e o agro, no camarote.


