Por Claudemir Brito
O prefeito Flávio Cristo Rei atravessa, talvez, o momento mais decisivo de sua curta trajetória política em Talismã. O que começou como um governo apadrinhado pelo ex-prefeito Diogo Borges, nome de peso no cenário estadual, parece agora caminhar para uma reorganização forçada, com o gestor cada vez mais isolado e com sua base desidratando rapidamente.
A decisão de Cristo Rei de adotar o discurso da “herança maldita” — alegando ter recebido a prefeitura com dívidas — pode até ter alguma razão técnica, mas politicamente tem se mostrado um tiro no pé. O argumento, recorrente em gestões de transição, soa desgastado e tem irritado justamente quem construiu o palanque que o levou ao poder.
O silêncio estratégico de Diogo Borges também deve ser lido com atenção. O ex-prefeito não rompeu publicamente, mas sua postura de distância e a movimentação de lideranças locais sugerem que há espaço aberto para uma rearticulação, seja sob seu comando ou na formação de um novo grupo dissidente. Em Talismã, onde a política tradicional ainda dita o ritmo dos bastidores, isolamentos como o que se vê tendem a ser fatais.
Do ponto de vista administrativo, os cortes realizados — e em alguns setores, considerados excessivos — foram interpretados por aliados como um movimento sem articulação política prévia. Não é novidade que prefeitos eleitos sob forte influência de lideranças regionais precisam negociar cada passo com as bases. No entanto, Cristo Rei optou pelo caminho da independência repentina, sem um plano claro de recomposição e sem amparo de novas alianças. O resultado: fragmentação do grupo, críticas internas e risco de implosão do bloco político antes mesmo da próxima eleição.
O efeito colateral imediato é o comprometimento da governabilidade. Com uma base fragmentada, Flávio Cristo Rei corre o risco de perder o controle da Câmara, travar projetos importantes e, ainda pior, ficar sem sustentação política para um eventual projeto de reeleição. Resta saber se haverá tempo — e habilidade — para reconstruir pontes antes de 2026 ou se o prefeito seguirá o caminho já conhecido por outros gestores que confundiram autonomia com autossuficiência.



