
O protestantismo, que nasceu da coragem de denunciar os desvios da fé, hoje precisa olhar para si mesmo e reconhecer que parte de suas práticas atuais não apenas contradizem o evangelho, mas também afastam os que buscam Deus com sinceridade. Sem autocrítica e mudança, corre-se o risco de perder a relevância espiritual e moral diante de uma sociedade que anseia por verdade, mas recebe espetáculo.

Por Claudemir Brito/Jornalista e editor-chefe do portal www.claudemirbrito.com.br
Em vez de pregar arrependimento, se prega vitória. Em vez da cruz, se vende a chave da casa própria, do carro importado. Em vez do evangelho, se distribuem frases de impacto com fundo musical e efeitos de luz e fumaça no altar. O que antes era considerado desvio doutrinário, hoje se tornou rotina: heresias são aplaudidas, milagres são anunciados como pacotes promocionais de férias e a fé virou uma mercadoria de alto giro comercial.
Em milhares de templos espalhados pelo Brasil, seja de paredes pretas ou brancas, práticas questionáveis deixaram de ser exceção e se tornaram o “novo normal”. Pastores prometem curas instantâneas em troca de “atos proféticos” financeiros, vendem objetos supostamente ungidos — de sabonetes a travesseiros — e usam versículos bíblicos fora de contexto para justificar arrecadações milionárias, muitas vezes sem qualquer prestação de contas à comunidade.
Enquanto isso, fiéis são convencidos de que qualquer crítica é “levantar a mão contra o ungido”, criando um ambiente de idolatria a líderes religiosos que vivem cercados de luxo, segurança particular e cultuam a própria imagem nas redes sociais. São figuras blindadas, imunes à correção e à reflexão teológica, com seguidores mais fiéis a eles do que ao próprio Cristo.
A música tocada nos cultos se aproxima cada vez mais do que se ouve nas rádios seculares. Funks, batidas eletrônicas e coreografias em grupo invadem os altares sob o rótulo de “adoração”. A estética gospel busca aplauso e engajamento digital, não arrependimento e conversão. A emoção substitui a convicção. O espetáculo substitui a doutrina.
Em muitos casos, o púlpito se tornou palanque político. Líderes com ambições eleitorais usam a fé como escada para o poder, manipulando a fragilidade espiritual de seus fiéis. A igreja, que deveria ser espaço de refúgio e transformação, tornou-se balcão de negócios e comitê de campanha.
Quando aparece um jornalista como eu, disposto a denunciar essas práticas, a resposta é previsível: “frio espiritualmente”, “sem discernimento”, “sem visão de Deus”. O debate teológico foi substituído por slogans. A exortação bíblica, por coaching espiritual.
Recentemente, um episódio sintetizou esse cenário: a frase “OF THE KING, THE POWER, THE BEST”, dita por um menino de 15 anos autointitulado missionário, virou meme e até funk na internet. O altar virou piada. A fé virou meme. E o protestantismo, ridicularizado — exatamente como Satanás gostaria.
Na internet, proliferam páginas dedicadas a ridicularizar os chamados “cultos bizarros”, onde se vê gente rodopiando como piões, caindo com sopros, vestidos com roupas caricatas. A nova tendência? Grupos de dança compostos por senhoras vestidas com roupas idênticas, tocando pandeiros e percussões, em rituais coreografados que mais confundem do que edificam.
O evangelho — que é boa nova de salvação, transformação e verdade — foi sequestrado por um sistema que fatura alto com a ignorância, a carência emocional e o analfabetismo bíblico. A fé virou produto. O culto, performance. O altar, vitrine.
O “novo normal” das igrejas precisa ser encarado com urgência — teológica, ética e espiritual. É necessário romper com esse modelo corrompido, denunciar o falso evangelho, resgatar a centralidade das Escrituras e devolver à igreja seu papel de agente de redenção, e não de entretenimento.
Se nada for feito, a fé cristã será lembrada não pela sua mensagem eterna, mas pela sua capacidade momentânea de enganar, lucrar e distrair. E nesse caso, a culpa não será do diabo. Será nossa.
Em Jeremias 23:25-32, Deus condena os falsos profetas que profetizam mentiras e fazem o povo pecar. Ele afirma que não os enviou e que suas palavras não trouxeram benefício. A palavra de Deus é comparada a fogo e martelo, capaz de destruir e transformar.
²⁵ Tenho ouvido o que dizem aqueles profetas, profetizando mentiras em meu nome, dizendo: Sonhei, sonhei.
²⁶ Até quando sucederá isso no coração dos profetas que profetizam mentiras, e que só profetizam do engano do seu coração?
²⁷ Os quais cuidam fazer com que o meu povo se esqueça do meu nome pelos seus sonhos que cada um conta ao seu próximo, assim como seus pais se esqueceram do meu nome por causa de Baal.
²⁸ O profeta que tem um sonho conte o sonho; e aquele que tem a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? Diz o Senhor.
²⁹ Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra?
³⁰ Portanto, eis que eu sou contra os profetas, diz o Senhor, que furtam as minhas palavras, cada um ao seu próximo.
³¹ Eis que eu sou contra os profetas, diz o Senhor, que usam de sua própria linguagem, e dizem: Ele disse.
³² Eis que eu sou contra os que profetizam sonhos mentirosos, diz o Senhor, e os contam, e fazem errar o meu povo com as suas mentiras e com as suas leviandades; pois eu não os enviei, nem lhes dei ordem; e não trouxeram proveito algum a este povo, diz o Senhor.
Jeremias 23:25-32


