
Relação rompida entre governador Wanderlei Barbosa e o vice Laurez Moreira projeta cenário de incertezas e disputas internas que podem redefinir o poder no Estado.
Por Claudemir Brito/Da redação
Palmas (TO) – Dizem que política é a arte do possível. No Tocantins, é também a arte do incômodo. O governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) se vê diante de uma escolha que mais parece castigo: manter-se no cargo até o fim do mandato ou abrir mão do Palácio Araguaia em 2026 para disputar o Senado — e, de quebra, entregar a chave do Estado ao seu desafeto político, o vice-governador Laurez Moreira (PDT).
É como sair de casa e deixar o inimigo com a senha do Wi-Fi, o controle remoto e o cartão do banco. E o pior: tudo dentro da legalidade.
Wanderlei aparece bem nas pesquisas. Sonha com o Senado. Mas o preço da renúncia não é pequeno. Laurez, rompido desde 2024, não deve apenas “esquentar a cadeira” — deve usar a estrutura da máquina como trampolim político, com direito a tapete vermelho, palanque pronto e discursos inflamados sobre mudança. Se alguém acha que ele vai assumir com neutralidade suíça, é melhor rever o noticiário.

O nome do vice-governador teria sido lembrado apenas pelo prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos (Podemos), e pelo próprio governador Wanderlei Barbosa (Republicanos). Governador e vice vivem um longo período de distanciamento, e Laurez tem enfrentado um processo de esvaziamento político dentro da gestão da qual faz parte.
Enquanto isso, Léo Barbosa — o filho do governador — pode ver sua possível reeleição ser prejudicada em um cenário onde o pai não comanda mais o Estado e o novo governador trabalha para construir um projeto próprio. Já Amélio Cayres, o nome preferido de Wanderlei para a sucessão, que espere sentado. Com Laurez no comando, o espaço político encolhe rápido — e sem aviso.
A verdade é que, até agora, ninguém acredita muito quando Wanderlei diz que não será candidato ao Senado. O discurso tem cara de estratégia ensaiada. Mas o relógio eleitoral corre, e a dúvida pesa: vale a pena sair por cima e arriscar o futuro do grupo, ou é melhor continuar governando e manter as rédeas até o fim?
No fim das contas, Wanderlei enfrenta um dilema shakespeariano com sotaque do cerrado: disputar ou não disputar, entregar ou não entregar? E enquanto ele calcula os riscos com a régua do poder, Laurez afia as unhas no camarim. Porque, no Tocantins, quem pisca primeiro não perde o jogo — perde o governo.


