
Por Claudemir Brito
Após a repercussão do assassinato do vigilante Dhemis Augusto Santos, ocorrido em uma galeria comercial de Palmas no sábado (29), a Secretaria de Direitos Humanos do Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou uma nota atribuindo o episódio à “banalização da violência” e ao que chamou de “fácil acesso às armas”. A sigla afirmou que discursos irresponsáveis teriam estimulado uma suposta cultura de resolução de conflitos “na bala”.
Entretanto, especialistas em segurança pública e estatística criminal apontam que associar tragédias isoladas ao porte legal de armas ou a categorias específicas de atiradores civis é uma simplificação perigosa, que desvia o foco da discussão central: a persistência da violência estrutural no país, marcada principalmente pelo crime organizado, tráfico de armas ilegais e impunidade histórica.
Não há relação comprovada entre armamento legal e aumento da violência
Dados públicos do Ministério da Justiça e do Fórum Brasileiro de Segurança mostram que mais de 80% dos homicídios no Brasil são cometidos com armas ilegais e que o país enfrenta há décadas índices de violência elevados quando o controle do acesso às armas era muito mais restritivo. Ou seja, a tragédia ocorrida em Palmas não representa uma regra social, mas um ato individual de descontrole e conduta criminosa.
O suspeito Waldecir José de Lima Júnior, apontado como autor dos disparos, já possuía histórico criminal anterior, incluindo processos por porte ilegal de arma entre 2011 e 2018 — muito antes das flexibilizações de armamento citadas na nota partidária. Esse fato evidencia que o episódio não pode ser atribuído ao universo de cidadãos legalizados, que cumprem normas rígidas de fiscalização e treinamento.
Banalização da violência é cultural, não consequência de legalidade
Reduzir o problema da violência a um único fator — o acesso às armas legalizadas — desconsidera fatores amplamente reconhecidos como determinantes, entre eles:
- Falhas históricas do sistema de segurança pública
- Ausência de políticas de saúde mental
- Incentivo social à impunidade
- Falta de mediação pacífica de conflitos e educação emocional
- Crescente desumanização dos relacionamentos sociais
A tragédia evidencia, sobretudo, o fracasso na capacidade social de resolução civilizada de divergências, e não uma relação direta com a posse legal de armas.
Generalizar não ajuda — e prejudica milhares de cidadãos de bem
A tentativa de vincular todo praticante legal de tiro ou colecionador ao crime cometido criminaliza uma categoria responsável, que inclui atletas, empresários, profissionais de segurança, agentes do Estado e cidadãos que operam dentro da lei.
Responsabilizar coletivamente um grupo por um ato individual contribui apenas para polarização política, não para a redução real da violência.
O foco deve ser justiça, não narrativa
A sociedade espera:
- investigação rápida e imparcial,
- punição exemplar ao autor do homicídio,
- medidas concretas para prevenção de conflitos e proteção dos trabalhadores da segurança.
Transformar uma tragédia em palanque político não contribui para a paz social — apenas distorce as causas do problema.
O assassinato de Dhemis é grave, brutal e exige resposta firme do Estado. Mas não pode ser instrumentalizado para atacar segmentos inteiros da sociedade ou construir discursos ideológicos sem base factual.
Violência se combate com educação, justiça, políticas públicas eficientes e fortalecimento das instituições — não com culpabilização genérica e narrativa partidária.


